sábado, 24 de novembro de 2012

Blog em Recesso Parlamentar

Só pra avisar, é possível que eu demore a terminar os resumos do jogo que estava mestrando e postando aqui. 

Lamentavelmente, mediante compromissos inescusáveis no meio político, a mesa ficou em stand by, possivelmente os players estão tocando outras campanhas, e acredito eu que dentro de alguns meses (se não cerca de um ano) eu anuncie que voltei com a mesa e resgate os meus players amados de volta, até porque sem eles a mesa não seria tão divertida.

A campanha foi parada, o que não significa que eu não tenha já, desde o início dela, planos para como deverá ser o seu prosseguimento, quests intermediárias, e possível final (sempre passível de alteração, dependendo do que os players aprontarem em meio ao jogo).

Acredito que os jogadores me perdoem, até porque, uma aventura de cerca de dois anos pra mais não irá sofrer grandes danos se houver registro decente de tudo que fizemos (disso me encarreguei, então há feedback dos acontecimentos, e possíveis remodelamentos a negociar quando a quest voltar) mesmo com a demora pra continuar, e isso permite ao menos que eles continuem com outras mesas.

Pelo visto, terei que fazer uma contribuição de perdão aos meus jogadores por abandonar o sagrado ofício de mestrar, então dá pra se dizer que se eu fui até o momento do pause no jogo uma mestre razoável, eles voltarão para a aventura.

Prometo continuar postando a redação literária do jogo neste blog assim que houver tempo pra que eu revise o texto e veja onde parei na organização pra não virar uma bagunça.

Amo vocês.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O Não Vivido

Aquele momento em que se sente uma grande nostalgia por algo que não foi vivido, que traz à memória coisas que não aconteceram, que gostaríamos que acontecessem, que traz sentimentos tanto de saudade quanto de melancolia, que as vezes nos acometem. Não sei se acomete a outras pessoas, mas a mim sim.

Faz tempo que eu não firulo coisinhas no blog aqui, mas há acontecimentos que merecem isso, mesmo quando eu não tenho tempo de pensar muito em ter vida própria como agora.

E um desses momentos que me remeteu a uma análise interior e a essa nostalgia pelo não vivido foi a formatura da Tati. Aquela entrada que todos esperavam na festa, o sorriso de orelha a orelha com o diploma depois de anos estudando, o suave amanteigado do vestido farfalhando enquanto todos viam isso como a cena mais feliz da noite. 

Acho até que isso foi mais que o sentimento de saudade de quando eu via os pais do Yuri levando a gente de carro pra algum lugar, e eu sentia saudade de ver os meus pais, no nosso carro, e o meu irmão do meu lado, quando viajávamos pro interior, há tantos anos atrás. Isso ainda era saudade de algo que aconteceu, em um momento que eu via uma família que realmente era adorável como as imagens do meu passado.

Mas essa formatura foi uma nostalgia de algo que eu não tive ainda. Eu ainda vou me formar em Direito dali a um ano e pouco, assim como a Tati em Fisioterapia agora, depois de tanto tempo vendo a cara da faculdade e dos colegas, ter um vislumbre mais próximo do que vai ser o futuro. E isso é o que fazia com que ela estivesse tão feliz e saltitante, mesmo que o DJ da festa estivesse com cara de quem queria ir pra casa dormir fazia um bom tempo. E essa alegria toda foi transmitida a todos, dava pra sentir nos olhares brilhantes de todos que acompanharam aquela história até esse desenlace feliz.

O que ela falou, quando chegou, sobre quando os seus avós ajudaram a construir aquele salão em Forqueta onde agora ela tinha a chance de estar, me lembra do quanto lá no interior de Mariana Pimentel os parentes do pai ajudaram pra construir tudo, de como a minha dinda participou na construção da capela na Itaí, e até hoje tem uma plaquinha com o nome do meu dindo em um dos bancos como doador de material pra ajudar, como de tantos outros vizinhos. A alegria de ela poder dedicar isso à família dela, aos seus pais, e ver eles com aquele sorriso enorme ali, foi uma coisa incrível.

Daí eu fiquei imaginando a minha formatura, e de como isso vai ser feliz um dia ali no futuro. E de como isso vai ser ao mesmo tempo melancólico e até mesmo digno de alguma filosofia sobre o sentimentalismo humano. Porque no fim das contas, a Tati tem uma vida feliz, a família dela se manteve unida de um jeito lindo, mas os meus pais não vão estar lado a lado, e eu não sei o que vai acontecer mesmo. Porque mesmo que meu pai esteja ali com um sorriso, certamente, por saber o que está acontecendo, ele não vai me enxergar no vestido de formatura, não vai ver a decoração da festa e nem o sorriso das pessoas, não vai piscar com o flash das fotos, não vai ter uma lembrança como a dos outros disso, somente a sensação do ambiente e o som dele.

E depois de tudo que ele já fez por nós todos, é melancólico pensar que a compensação dele em um evento desses vai ser pela metade. Sabendo dos sonhos dele, de quando ele me contava que quando era guri queria ser piloto de caça na aeronáutica, e que só não foi porque a mãe dele achava muito longe e muito perigoso, pra alguém do interior, ter que viajar até Belo Horizonte, na época pra ter essa chance; de como ele gostava de viajar quando tínhamos um fim de semana, e ver cidades bonitas e diferentes, de como ele queria poder se aposentar aos 40 pelo rendimento do trabalho, ter uma poupança melhor, pra poder pagar a nossa faculdade e poder sair viajando pelo Brasil, ele queria conhecer o mundo, ver as coisas. E no fim, estamos tendo um trabalho um tanto mais triplicado pra conseguir alguém com formação acadêmica na família, e ele não pode mais ver as coisas que queria enxergar. 

No fim, ele não vai ver a minha formatura, mesmo lá, e isso é injusto, mas mesmo assim, eu não posso fazer nada pra mudar isso. Por isso quando eu vi a formatura da Tati eu realmente me senti muito feliz, porque eu não sei se ela consegue entender isso como eu, mas realmente, ela teve a formatura dos sonhos de qualquer pessoa, e foi incrível ver que há quem possa ser feliz assim, e possa ainda compartilhar com as outras pessoas tanta felicidade de forma a que até eu tenha conseguido me sentir tão bem ali. Ao ponto de conseguir me fazer ver a nostalgia de uma coisa que não me aconteceu, mas de eu conseguir sentir como se acontecesse pra mim um dia, como se tudo pudesse ser diferente, como se as coisas não fossem como são. 

É por essas e outras que eu fiquei feliz de ter conhecido ela, porque é como se as coisas pudessem ser melhores quando ela está falando e rindo perto da gente. Isso por si só, já é um presente maravilhoso pra minha alma.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Alfabeto Polonês

Faz um tempinho que não tenho podido ir nas aulas de polaco da BRASPOL - Caxias do Sul, mas tento achar tempo pra pelo menos estudar um pouco do que aprendi ali e pra voltar a frequentar as aulas.

Recebi hoje pelo e-mail, de um dos colegas da BRASPOL algo realmente interessante, até mesmo pra quem já começou a aprender polaco. Pra quem não conhece, o polonês é um idioma com 32 letras e 6 dígrafos. O alfabeto deles inclui letras com kropkas (marcação diferencial, como acentos, cedilha, traços ou pontinhos em letras não usualmente marcadas assim por nós) e exclui as letras X, V e Q, que não fazem sentido com a fonética completamente diferente que eles tem.

Eu não vou explicar a fonética e nem nada porque iria me tomar um tempo do cão (e até porque eu lembro bem de alguma coisa, mas dependendo da particularidade da palavra eu não sei falar não hein hehehe - acho que seria mais fácil pra aprender se eu tivesse com quem conversar constantemente nesse idioma)

Curtam a imagem:


domingo, 1 de julho de 2012

Arte surrealista

O limiar do que considero arte antes do que passa a ser a droga de um banquinho pendurado em uma parede, ou de uma roda pregada em uma cadeira, como querem fazer a gente engolir nas Bienais de Arte Moderna.

O surrealismo capta a técnica de pintura do realismo e do expressionismo, dependendo do efeito desejado pelo artista, e a meu ver, traz consigo a ideia de gerar iamgens subliminares óbvias, é uma incitação ao pensamento, sem perder em alguma qualidade de imagem, beleza ou significado.

Então, estou colocando aqui primeiramente algumas imagens de Mark Ryden. Se quiserem saber quem é o cara pesquisem na wikipédia ou no google, é fácil, oras.

Godbye Bear - Drawing, 2006 - grafite em papel
 
TS16 Girl Color Study, 2006 - oil in wood slab
 
Jessica's Hope, 2001 - oil on canvas
 
Night Visit, 2003 - oil on panel
 
Fountain, 2003 - grafite em papel
 
The Creatrix, 2005 - oil on canvas (eu conheci a imagem em 2008 quando comprei um boton =P, adoro muito ela)
 
Dead Caracters, 1997 - oil on panel
 
Virgin and Child, 2010 - oil on canvas
 
Sophia's Bubbles, 2008 - oil on canvas
 
Long Yak, 2008 - oil in canvas
 
Fur Girl, 2008 - oil on canvas
 
Little Star, 1997 - oil on panel
 
St. Barbie - é o final, não achei o ano da pintura.
 
Espero que a minha seleção de pinturas surrealistas tenha sido boa.
 

Pseudo-Haicai 1

Bem, como devem ter percebido, eu estava entediada na hora do almoço e anotei versos, mas realmente eu sou uma lástima pra essa coisa poética toda... Então me perdoem os amantes da poesia.

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Os estranhos olhares,
Da tarde a mateares...
A dor de invejares.

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Quão triste é a vida não vivida?
Quão dolorosa é a vida sobrevivida?
Quão feliz é a morte morrida?

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Engenhoca

A engrenagem que se move
O giro que ela entende
Mas ainda assim não se comove.

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Deus sofre...
A humanidade, sobre
Que não pôde consertar.

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Os adultos não sabem consertar o mundo...
Está na hora de testar a teoria das crianças.
Certamente elas tem mais espírito para compreender a realidade.
Suas lágrimas são sempre sinceras.
Quase.

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Simetria Assimétrica

O segredo para traçar uma linha reta na lousa é parar de tentar ver o que está acontecendo na ponta do giz e olhar para o objetivo do traço ao final, riscando com confiança.

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Quanto tempo faz que você não vê seus pais olhando fixamente para a frente no carro da perspectiva do banco das crianças, esperando chegar a um destino mais divertido e simplesmente confiando?

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Ghost Girl, 2006, Oil on Canvas - Pintura surrealista de Mark Ryden

Pseudo-Soneto 1

É tempo de ver a cor do céu
Hora de deixar ao vento as madeixas
De compreender a luz do dia, não deixas
E as folhas a rodopiar ao léu

Em tempos do abrir das asas imperiosas
Perante o céu além, hão de ser audaciosas
As ações humanas, e com os pássaros rivalizar
E então da história enaltecer, o cadenciar

Qual o valor de uma folha ao vento?
Qual o valor de uma alma ao relento?
Cada vez mais, onde cada vez menos há

Quem vê este haver
Há de tremer
Quando ele perder

Walnut Spirit, 2006, Oil on the wood slab - Surrealismo de Mark Ryden

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Poesia

Eu sempre fui um fracasso em poesia, mas achei esta que é antiga por aqui e independentemente da qualidade estou postando, sem título, aparentemente =D


Eu estou perdendo a minha vida

Estou perdendo a minha alma

Estou perdendo meu sonho



Não posso perder ele

Meu sonho é algo somente meu

Minha alma é somente minha



Porém... O sonho...

Eu nunca vou perdê-lo,

Ele é somente uma imagem

Se eu realmente o alcançasse

Ele não seria um sonho



Um sonho é algo para toda uma existência

E uma existência é uma alma...



Uma alma poderia ser um espelho

Onde se vê o reflexo do sonho

E ele pode se quebrar...



Mas mesmo que a alma sofra

Mesmo que o espelho quebre

Nos fragmentos há uma imagem,

Um detalhe do sonho

Que parece ser mais belo

Menor, mas mesmo assim melhor



E tentar juntar os cacos do espelho

Irá formar novamente uma imagem maior

Maior e mais imperfeita

E ela ficará borrada

Pelo sangue das mãos que se ferem

Se ferem ao tentar segurar uma parte da alma

Uma parte que não pode ser salva



E ao errar tentando ressuscitar algo assim

Ressureição de uma morte final

Algo inexistente...



Estarei manchando o espelho

O espelho da minha alma

E nele não mais poderei ver

A imagem do sonho,

Nem mesmo o pequenino sonho



E estarei perdida

Na escuridão de um sonho desconhecido

Na ferida de uma alma quebrada

Na imagem de um espelho que mente...

Mesmo que esse espelho seja o meu.

sábado, 26 de maio de 2012

Outro Modo de Ver a Vida

Dizem que quando não se sabe por onde começar uma história, se começa pelo começo. Então o começo dessa história é um personagem que é a escritora do personagem. Uma menina que é filha de pessoas que viveram parte da vida no interior, e outra na cidade, e que ainda mantinham laços com seus parentes nesse lugar. Não é difícil imaginar essa pequena Lady conhecendo o interior e suas formas simples e encantadoras. Como também não era difícil imaginar essa pequena Lady na cidade, desfrutando da pequena fortuna que seus pais construiram, vestida como uma boneca, e dona de uma boa educação, talvez um pouco mimada.

Essa menina conheceu até mesmo a sua bisavó, que foi viver na cidade há algumas décadas, em razão da idade avançada. A velhinha certa vez tinha dito ao seu "genro", o pai da menina, que "se não fosse tão jovem, quando eu morresse, queria que viesse comigo, porque é uma pessoa muito boa. E quando ela tinha três anos a sua bisavó se foi, depois de ter tentado inúteis vezes ensinar aquela menininha a fazer crochê. E uma semana depois, como que por um lapso do destino, a mãe do seu pai se foi, e ficava sem uma das suas avós. Isso, segundo ela, era chamado de 'destino'. Nada acontece por coincidência, é o inevitável.

Com sete anos seu pai a colocou em aulas para aprender piano. Mal tinha começado a escrever bem, já tinha mais uma atividade além de lidar com os coleguinhas da escola pública, algo que achava irritante, afinal, os seus comportamentos eram vulgares. Sabia ler desde os quatro anos, apesar de escrever com letras viradas, como em um espelho, por ser canhota, e acreditava que aquela escola pública horrorosa era uma coisa que impedia o desenvolvimento do seu conhecimento.

Aos nove para os dez anos foi transferida de escola, depois de um escândalo que se tornou judicial, por causa das diretoras da escola, em tese, praticantes de Magia Negra ou algum tipo de culto, que envolvia algumas das crianças da escola, fato este descoberto por ela e relatado aos seus pais. Apesar de ter traído a confiança de uma amiguinha, era algo que evidentemente envolvia inimigos e amigos políticos do seu pai, sempre cotado como candidato a alguma coisa e sempre negando-se a isso, além de ser algo que era, no seu parco entendimento, como uma católica compulsória pela tradição da família, fora da lei.

Na nova escola as coisas não eram muito diferentes da antiga, exceto que algumas pessoas pareciam ser menos vulgares. Mesmo assim, ela era a menina do canto, aquela que estudava em demasia e sabia todas as respostas, não que estudasse de fato, fora da escola nunca abriu um livro que fosse relativo às aulas, estes eram muito fáceis. Aprendeu a viajar pelo mundo lendo, e não era o tipo de criança que com doze anos estava se escondendo atrás da escola com um coleguinha. Pelo contrário, e talvez isso fizesse com que algumas das garotas vulgares, a seu ver, a detestassem. Mesmo assim, antes dos seus 16 anos não achava errado brincar de bonecas, ler ou escrever. Aos 14 anos parou de tocar piano, sua mãe atormentara a sua paciência de uma forma irritante, e esse foi o seu protesto.

Falando em idades, talvez tenha sido aos oito ou nove anos que conhecera a sua vó materna, quando ela iria fazer uma cirurgia de alguma coisa, que depois veio ela a descobrir que não era mortífera, mas tão somente um apendicite.

Seu avô materno era um interiorano negociante, que tinha um armazém, ou boteco, há mais de cinquenta anos, sempre em locais de alta periculosidade, e poucas pessoas tinham coragem de tentar intimidar um velho que parecia mais forte que muitos jovens, tinha estilhaços de chumbo em braços, pernas e outros lugares, e uma cicatriz em diagonal no meio do seu nariz. Segundo ele já tinha passado por mais de 27 assaltos, sempre reagira a todos, tinha mais de 18 tiros, nas suas contas, e aquela cicatriz era fruto de uma briga de facão que tivera com um ladrão certa vez. Muitas pessoas diziam que ele era louco, mas ela conversava periodicamente com o velho, afinal, ele era inteligente, apenas não tinha vocabulário para se expressar, e na falta disso criava analogias para explicar suas ideias, e sempre que possível, a analogia tinha uma vaca, de fato, ele era um colono em espírito.

Uma vez estava a conversar com o velho em seu bar, e enquanto ele se erguia para atender um cliente, e atirar para fora mais um bêbado, um velhinho lhe perguntou "o que você quer ser quando crescer?" e ela, no auge de seus quatro anos, olhou para o seu pai, que estava servindo-se de mais café ao lado, e perguntou a ele "qual é a profissão mais importante do país?" e o seu pai disse "ah... sei lá... deve ser presidente, porque?" e ela então olhou para o velhinho e disse "é isso aí que eu vou ser então..." Isso já denotava que ela possuia um ego e uma ambição para ser mais do que o destino poderia querer permitir que fosse.

Seus pais se separaram quando ela tinha 13 anos, e Lady tinha a essas alturas um irmão de 8 anos. Esse irmão era uma dupla desilusão. Afinal, com cinco anos ela pedira a seus pais uma irmãzinha para brincar, mas pensava que os filhos nasciam menores, mas não tão menores, era um bebê, e ainda por cima, um menino. O seu irmão ficara morando com a mãe, e ela percebendo que seria um grande problema ficar ali, saiu junto com seu pai. Tinha perfeito entendimento de que a mãe era uma péssima administradora e iria falir e vender tanto patrimônio de quanto dispusesse.

Estava certa. Dentro de quatro anos, via já mais de uma vez o Tabelionato da cidade, para ver sua mãe vendendo terrenos e casas. 70% do patrimônio que lhe era de direito se foi. A irritava esse tipo de coisa, afinal, aquilo deveria ser a sua herança, estavam dilapidando o seu futuro. Enquanto isso, a doença de seu pai piorava, e veio-lhe a cegueira. Mesmo cego, com os proventos de uns poucos alugueres de bangalôs, dos quais ainda contribuía para a previdência social em altos valores, aquele velho tinha conseguido adquirir terrenos enquanto a mãe fazia o inverso. Isso, ela sabia, era aptidão para as finanças. Até que então o velho se aposentara, com uma quantia pelo menos mais gorda, graças a suas contribuições.

Em seus 16 anos, vira seu pai casar-se com a viúva do irmão de sua mãe, via que seu avô achava que estava ficando tarde para quererem casá-la, e passava os dias estudando, lendo, brigando com o computador fraco e desatualizado, e as noites trabalhando no restaurante da tia, o que lhe rendia cansaço, afinal, dormia menos de quatro horas, trabalhava na cozinha, no balcão, servia mesas, cuidava do caixa, e por penalização pelos problemas de saúde da tia, ainda arrumava os estoques de bebidas de pesadas caixas toda noite.

Depois de uma grande conversa com seu pai e seu avô, para convencê-los de que ela deveria sim ter um diploma universitário e que casamentos eram inúteis, ouviu aquela frase, que a deixara muito feliz, do seu velho avô materno e punho de ferro da família "é... apesar de ser mulher, até que tu é inteligente". E foi assim que partiu a preparar-se para o vestibular, ver gente inteligente na capital, e não só alunos idiotas da sua cidade satélite, ver aulas que faziam mais sentido e ter pessoas que liam coisas e conheciam de ciências o suficiente para manter uma conversa mediana e compreender as suas ideias.

Nesse ambiente de estudos, tivera coragem de mostrar pela primeira vez um de seus textos, em que trabalhava no velho computador desde os 12 anos, para um amigo, que a fez crer que não deveria deletá-los, e sim publicá-los, e nunca desistir  de escrever.

Conseguira uma bolsa federal em uma universidade de outra cidade, nem mesmo sabia onde isso ficava no mapa. Mas era a chance de sair de uma casa onde uma tia a detestava e tinha que manter o decoro e boa educação perante os insultos, treinando a sua paciência, e seria onde teria a liberdade de viver um pouco mais a sua própria vida. A partir de seus 18 anos, era uma acadêmica de Direito. No seu aniversário de 20 anos fechara o contrato para a publicação do seu primeiro livro, apesar de já ter mais quatro guardados em backups.

Ali ela poderia ser quem quisesse, ninguém se lembrava da antiga menina intelectual e que detestava a todos. Ali ela poderia ser popular, e aparentemente, ser intelectual não era um defeito, aquele era um meio de pessoas inteligentes, como ela. E se sentiu feliz por isso. Apesar de se sentir deprimida com o fato de mais de 80% dos outros alunos ser pseudo-intelectual e não compreender o real sentido da vida, da humanidade ou do significado da existência. As pessoas não compreendiam política, sociologia, antropologia ou ciências exatas da forma mínima necessária, nem nunca saberiam apreciar a neblina da manhã ou o som da chuva, muitas delas só compreenderiam o som de notas de dinheiro em atrito entre si enquanto são contadas, e para ela isso não era o suficiente para ser um profissional.

Uma percepção de tudo era necessário, e poucas pessoas tinham isso. E por incrível que parecesse, a maior parte dessas pessoas estava em grupos não da filosofia, na maior parte das vezes, mas pelo contrário, as vezes eram aquelas pessoas que nunca teriam um diploma, ou então, aquelas que tinham tantos diplomas que raramente poderiam ser compreendidas por seres humanos comuns. E fazia suas amizades dentro daqueles grupos politizados, ou informados sobre coisas diferentes, interessados em algo mais, a vida. Enquanto, ao mesmo tempo nutria uma grande vontade de ver mortas, torturadas, queimadas ou em eterno sofrimento aquelas pessoas desalmadas que viviam para comprar o que não queriam para exibir a pessoas de que não gostavam.

Talvez uma bomba atômica fosse uma coisa não tão má quanto diziam, apesar de que a radioatividade seria um problema na repovoação do mundo com pessoas inteligentes, então simplesmente esperava por alguma solução melhor, talvez um partido político revolucionário em ideias e atitudes, diferente do espectro político arraigado de revolucionários de vermelho ou de crentes no liberalismo arcaico, entre outras ideias inúteis. A solução que funcionasse primeiro, ou talvez um fim rápido para o seu sofrimento nesse mundo. Mesmo assim, antes de deixar o mundo, ainda queria poder fazer muitas coisas, escrever mais, conhecer mais, estudar mais, ler todos os livros que pudesse, voltar a tocar piano, acreditar. Acreditar que as coisas poderiam mudar. Seria incrível ter todo o tempo do mundo para descobrir a essência da verdade.

Poderia ser uma advogada brilhante, uma juíza, ou uma promotora. Advogados criavam soluções irreverentes a casos curiosos, isso era intrigante, juízes poderiam criar a verdadeira Justiça, se seguissem de fato as prerrogativas que tinham, o que a maior parte deles não seguia. Promotores, bem, eles ferram a vida dos outros, parecia divertido também. Gostava de ação, mas só a tinha em um estande de tiro quizenalmente, não era o tipo de pessoa forte o suficiente para ser da polícia ou da investigação, fisicamente, era uma menina frágil, apesar de ter bons dotes mentais para entender coisas.

Mas também poderia ser uma investidora, como o seu pai, empresária, tinha conhecimento suficiente para ter a coragem de empreender, embora não tivesse a mínima intenção de deixar seus livros de lado. Poderia fazer isso, administrar a sua futura herança, ou poderia fazer o que bem lhe aparecesse, tinha uma parte de si que era séria e comprometida, mas tinha uma parte de si que gostaria de entender o ser humano, que achava a vida importante demais para ser levada a sério, que amava a noite, o rock, a música erudita, as duas coisas juntas, e qualquer outra coisa que parecesse realmente inteligente. Entre ser séria, interessada em política, finanças e poder, e ser uma produtora e admiradora de arte e conhecimento, ser considerada louca por algumas pessoas por ter uma peculiar visão de mundo, entre devaneios que se refletiam nos seus livros, nada poderia defini-la exatamente. Tinha um grande ego, e aspirava a grandes coisas, como ao mesmo tempo, também conseguia admirar a parte simples e filosófica da vida, a parte que a maior das pessoas não conseguia entender, a verdade.

E era assim que vivia, em seu pequeno apartamento custeado pelo seu pai à distância, estudando, fazendo festas e analisando as pessoas, as vezes sendo popular, outras vezes querendo a solidão, outras vezes aspirando um tanto de status político, e outras ainda desejando algum método doloroso de tortura, a ser imaginado, ou mesmo escrito, já que era contra a lei fazer coisas assim, afinal pessoas burras ainda são pessoas, e não poderiam ser alvo de nenhum tipo de experimento macabro, mas sempre desejando que uma parte de si fosse eterna, que dentro de séculos ainda lessem o seu nome em um livro, e então tivesse a certeza de que era eterna e imortal.

terça-feira, 22 de maio de 2012

9. Banho de Gato


            Enquanto isso, em Nova Orleans, Victor estava detrás da porta emperrada do velho casarão tombado, percebendo uma presença atrás dela, e Ryan percebia o mesmo quanto ao que estava do lado de fora. Quem vencesse a apreensão daquele momento primeiro teria o golpe de iniciativa, em se tratando de um inimigo.
            Depois de encararem-se e desferirem algumas palavras entre rodeios, Victor se irritou com a situação, tendo diante de si um Membro que exibia típicas roupas do século XIX, e então Ryan perguntou:
            - Não sei de onde és... És deste vilarejo?
            - Eu sou de vários lugares e não me preocupe de retornar a nenhum – disse Victor não querendo conceder informações ao estranho – E você? Responda! Disse ele irritado com os rodeios.
            Ryan se afasta um pouco desconfiado, e então responde, indicando a balbúrdia dos policiais do lado de fora:
            - Pois diga a estes Arcanos que não há ninguém a ser caçado aqui! Ryan temia ainda estar sendo caçado pela Inquisição em novas vestes.
            - Vai sair correndo agora? – recomeça Victor – ou vai dizer o que está fazendo aqui nesta casa?
            - Estás a me chamar de covarde? Pergunta Ryan ofendido usando de toda sua intimidação para com o estranho.
            Victor sente que mesmo sendo aquele esfarrapado um Membro de comportamento estranho, ele realmente parecia ser uma ameaça, e então lhe responde:
            - Então tudo bem – fala Victor tentando se controlar – diga-me seu nome, o meu nome é Victor.
            - Meu nome é Luppus... Responde ele em um firme blefe, do que Victor não desconfia, enquanto Victor acende um cigarro.
            - O que estás comendo? Pergunta Ryan observando Victor colocar o cigarro na boca.
            - Isso não é de comer, é um cigarro – explica Victor sorrindo levemente – Apenas para relaxar um pouco...
            - Cigarro? Pergunta Ryan confuso.
            - Quer um? - Pergunta Victor continuando a tragar seu cigarro, que nenhum efeito de fato fazia, e estendendo um cigarro ao recém-conhecido Luppus. – Acenda ele com o isqueiro. Explicou.
            Depois de observar Luppus lidando com o cigarro, de forma curiosa, Victor observou a situação, estava diante de um recém-desperto, de seja lá a época que fosse, e havia polícia próxima. Algo havia acontecido. Ryan enquanto isso se espantara com a curiosa chama controlada que saía de algo tão pequeno quanto era o isqueiro, e depois tentara lamber, morder e por último tragar com força aquele artefato denominado cigarro.
            - Olha só, não é muito bom ficarmos aqui não por que isso vai cheirar a problema, está cheio de policiais lá fora e não quero problemas aqui em minha vizinhança... - Comenta Victor pensando em um modo de saírem logo daquele local sem serem notados – Vamos sair daqui antes que a polícia desconfie de algo...
            - Não posso sair daqui... Responde Ryan.
            - Por quê? Perguntou Victor.
            - Hum... Bem, estás a ver aquela velha? – pergunta Ryan mostrando pelas frestas do casarão – Acabo de invadir lhe a casa, ela me viu, e matei-lhe o marido. Cometi um erro deixando-a viva...
            - Não sairemos pela frente, sempre há via alternativa... Comenta Victor, considerando dar a volta a dois quarteirões da mansão para chegarem à sua casa sem serem vistos.
            - Tsc... Vou te ajudar, só não sei o porquê ainda... Fala Victor andando para uma possível saída dali.
            - Qual é a sua tribo? Pergunta Ryan, referindo-se ao clã de Victor.
            - Bem, se quer saber, comece por você. Fala Victor em resposta, esperando obter mais informações do outro.
            Ryan insiste na pergunta, e Victor move as sombras ao seu redor ameaçadoramente, espantando o recém desperto.
            - Vós sois um Sabá! És um Lasombra! Espanta-se ele com a infeliz situação.
            - Então, você já sabe... Mas não diga que sou do sabá, sou antitribu. Quero distância, e somente isso, quanto ao Sabá. - Explica Victor, percebendo a expressão de Ryan se suavizar. – Sou livre...
            - Eu o atacaria seriamente... - Explica Ryan percebendo o mal entendido. – Mas não é verdade que és livre, o Sabá o caça, provavelmente. Comenta por fim.
            - Não que eu saiba, e se vierem estarei preparado. Comenta Victor encontrando o meio de saírem dali e percebendo que não foram notados.
            Depois de seguirem parte do caminho, Victor considera se aquele estranho teria antigas peças de ouro ou moedas antigas que poderiam render algum dinheiro se negociadas com colecionadores, mas percebe que aquilo parecia impossível, e pensa no fato de que vestido daquela forma, Luppus seria reconhecido facilmente.
- Assim que chegarmos vou providenciar umas roupas novas para você, assim todos vão te conhecer... Comenta então Victor.
Ao entrarem na casa, Victor vê um gato de rua que tinha entrado pela janela aberta miar assustado e tentar fugir, e Luppus tentando pegá-lo, dizendo:
- Deixe isso pra lá... - Porém ao terminar seu comentário o outro tinha conseguido pegar o gato que esperneava e miava enquanto tentava fugir usando suas afiadas unhas. – Você vai acabar chamando a atenção. Termina Victor suspirando ante à situação.
Ryan não permite que o gato, cinzento e peludo, mas não o suficiente para ser um persa, escape, como era sua intenção.
- Fique aqui, tome um banho, e deixe esse maldito gato! – começa Victor – não faça barulho, irei sair para procurar roupas pra você.
Victor considera que seria útil se suas roupas servissem no estranho, mas ele era muito mais alto e mais magro, embora isso não parecesse ser um grande problema. Victor tinha modestos 1,78m de altura e cerca de 77Kg, enquanto Ryan tinha cerca de 1,82m e cerca de 73Kg.
Victor continua praguejando para que Luppus deixe o maldito gato e dirija-se a um banho, porém o Brujah torna o gato seu carniçal. Não que isso fosse necessariamente útil, já que ele não tinha conhecimento das artes do Animalismo para poder emitir-lhe ordens, o que o tornava simplesmente um gato viciado em vitae que o respeitava relativamente e decidira por si mesmo seguir Ryan.
Ryan não consegue compreender porque no banheiro não havia uma tina d’agua para o banho, e Victor se irrita com a demora, enquanto Ryan tenta entender entre os estranhos artefatos daquele cômodo o que seria exatamente usado para um banho, apesar de que, banhos, pelo menos na crença humana de seu tempo, se em excesso, poderiam ocasionar doenças, e era duvidoso se esse tipo de doenças era ou não cabível a vampiros.
Victor se irrita e simplesmente grita para que ele se vista logo e sigam à cidade para se alimentarem, afinal, o tempo estava passando, e logo não haveria nenhum estabelecimento em que ele conseguisse roupas do tamanho de Luppus. Enquanto isso, Ryan, sem compreender a lógica de uma camisa que não possuía a abertura para vestir, rasga a parte frontal da camisa, de fato, uma camiseta, que deveria ter sido vestida pela cabeça, e ao olhar para as calças de Victor, que ficaram-lhe curtas, e um tanto largas, sem conseguir bem prendê-las a um suspensório, acabara por então rasgar parte delas.
- Ô filho dos Neanderthais (2), vamos logo ou tá difícil? Fala Victor enfurecido com a cena que via à sua frente, logo depois de ter exaurido sua raiva chamando pelo estranho.
Surgindo diante do Lasombra com uma estranha figura de mendicante daquele modo, o que realmente fazia o sangue subir à cabeça do outro, vendo a destruição de suas boas roupas.
- Que... Merda é essa! O que você fez? Está parecendo um mendigo! Começa Victor a esbravejar.
- Ahm... Tava feio... Fala Ryan intimidado com a situação.
- Feio? – Victor esbraveja batendo os pés nervosamente – Você parece um mendigo agora!
O Brujah então sem saber bem o que deveria fazer ante a isso termina de rasgar a camisa, decidindo que ela era um problema. Victor poderia ter um infarto se fosse um humano, mas reserva-se a um sonoro grito ante a situação que piorava constantemente:
- Não!
Victor se conforma que realmente o caso era complicado, e então prossegue, pensando “nem te conheço”:
- Siga-me, à distância... Fala por fim pensando que não queria perto de si um estranho como aquele.
(2) Homo Neanderthal, espécie de que em tese os seres humanos, ou Homo Sapiens evoluiu, de acordo com a Teoria Evolucionista.

8. Presente de Grego


            John se dirige novamente à parte agitada da boate, tendo então certeza de buscar por uma vítima que fosse humana, afinal, incorrer em uma falha como essa muitas vezes pode significar a morte.
            - Preciso de mais champanhe, a noite está maravilhosa... Fala John para o garçom, que estranha o fato de seu patrão ter voltado da área VIP depois de sair dali com duas belas mulheres, mas nada fala a respeito.
            John mantém seus olhos atentos a jovens moças belas como seu alvo seletivo, e percebe então uma chorosa moça de cabelos castanhos que estava encerrando drasticamente uma briga com o namorado e dirigia-se ao caixa para pedir pela conta e sair. Ela é bonita, e jovem, talvez até mesmo menor de dezoito anos, e possivelmente uma das tantas adolescentes que tem truques de falsificação de documentos para entrar em um lugar como aquele, mas, independentemente dessa observação, John se interessa por ela como possível vítima.
            - É por minha conta senhorita! – disse John se aproximando do caixa, decidido a não deixar a mocinha ir tão repentinamente à noite - Por que está indo embora tão cedo, a festa esta apenas começando!
            - Desculpe, mas realmente eu não estou me sentindo bem... Disse ela em resposta segurando o choro, e dava pra perceber as lágrimas que ela segurava pra não rolarem.
            - Posso fazer algo para aliviar a sua tristeza? Pergunta John, utilizando-se mais uma vez das artes do Fascínio, e a moça parece então vê-lo como o salvador de usa noite de mágoas, sentindo-se predisposta estranhamente a crer que ele era uma boa pessoa para seu consolo.
            - Ahm... Não sei... Er... Começa ela até mesmo tímida perante a presença agradável de John próxima a ela.
            - Venha comigo, você pode terminar a noite de um modo muito melhor... – diz John conduzindo-a ao pé da escadaria que dava para outro setor da ala VIP – deseja beber alguma coisa?
            - Ahm, eu não bebo... Respondeu ela timidamente, traindo a sua idade, apesar de isso não parecer um grande problema, a sua próxima desculpa poderia ser a de ser adepta do ovo-lacto-vegetarianismo.
            John pede que ela o aguarde, e ela o faz, aparentemente se sentindo um pouco mais tranquila depois daquela situação, vendo que seu namorado se retirara do ambiente um tanto consternado ao perceber que a garota que desprezara estava sendo cortejada pelo dono da boate, e que ele era bem apessoado para colocar a sua própria habilidade com garotas em um chinelo.
            John então busca em meio aos festejantes e baladeiros por algum bêbado que estivesse solitário, seria um bom presente para as duas cainitas que abordara indevidamente. Percebendo então que havia uma aparente despedida de solteiro entre três amigos, que bebiam chopp e embalavam risonhamente com a música. Ao agradar os seus clientes com a sua presença pessoal no lugar, perguntando o que pensavam do ambiente mantinha a cordialidade e a boa fama de ser atencioso aos seus negócios, e evidentemente, deixava a gula por uma boa noitada de despedida de solteiro acesa neles ao dar-lhes um passe para a entrada VIP onde havia duas belas moças aguardando por diversão. Realmente, era uma boa ideia deixar que os três fossem até lá, elas pareciam dar conta disso com facilidade. Depois dessas instruções, voltou a sua atenção à delicada moça que antes se debulhava em lágrimas, ela seria uma tímida e amável refeição.
            John deixa que a moça humana se dirija à ala reservada a eles, e avisa então às cainitas que não deveriam matar os seus visitantes, e não causar problemas para a Máscara dentro da sua boate, elas acham estranho, mas concordam, era uma refeição gratuita, no fim das contas.
            John considerou seduzir a moça, mas seria mais prático usar-se das artes da Dominação e ordenar simplesmente que a menina dormisse. E assim o fez. Alimentando-se. Porém, sua fome era tão grande que tomou mais de um terço do sangue da menina, e ela morreria se não tivesse como regenerar-se. John deu a ela um pouco de sua vitae para impedir a sua morte, o que de fato a tornaria bem mais dócil futuramente, uma sábia decisão que poderia futuramente render-lhe um rebanho.
            Ao deixar a moça adormecida onde estavam, John se dirigiu para o lugar onde as duas cainitas antes estiveram, conferindo em seu relógio a hora. Eram pouco mais de quatro da madrugada, e dentro de cerca de três horas veriam o amanhecer. Ao chegar ao local onde tinha deixado suas convidadas percebeu que as moças não estavam ali, e nem os três humanos que enviara posteriormente como almoço a elas.
            John percebe ao dar alguns passos dentro daquele ambiente, oculto por parte da mobília, que havia as pernas de alguém caído, e ao aproximar-se para ver, o que lhe aparecia era algo estranho. Via um corpo absolutamente pálido, de uma pessoa que parecia ter cerca de cento e vinte anos, com a roupa que parecia ser a do humano mais magricela daqueles três.
            Enrolara o corpo em um cobertor qualquer, pensando no que teria acontecido, e em como evitar problemas com a Máscara. Não pensara, e nem teria como pensar, sendo um Ventrue neófito, no que realmente significava um corpo naquele estado, subitamente, sem sangue, e com o pescoço quebrado, como para encobrir algo, algo que de fato era importante.
            Às vezes, as coisas acontecem como um aviso dos deuses, diria um grande sábio, mas muitas pessoas ignoram os avisos. E diante dele havia de fato uma diablerie cometida, mas ele não se dera por rogado disso. Talvez se sua Senhoria estivesse ali, naquele momento, tivesse emitido um grande discurso, a respeito dos efeitos do Amarante. Quando um vampiro é sugado até a essência de sua alma e encontra então o fim, seu corpo degenera-se até o ponto em que estaria se ele mantivesse a humanidade, e um criminoso deveria ser caçado.
            John tranca a porta do local, preocupado com os problemas e pensando em como os resolveria, percebendo então um elegante cartão sob uma das taças de champanhe abandonadas ali. E nesse cartão encontrava os seguintes dizeres: “Dra. Carla Rodriguez – Telefone 5566.3452”, e percebia no verso, em uma letra elegante, o seguinte recado: “Nos vemos na Exposição de Arte Moderna de Londres, meu lindo”. Isso denotava algum interesse de Carla em John, mas seria indizível qual seria o interesse de fato.
            Essa tal exposição de arte especificamente era uma exposição de esculturas em nobres materiais, organizada por uma Ancillae Toreador, em um Elísio particularmente pouco usado nos últimos tempos, em Carfax, Whitechapel. Essa propriedade, reverenciada há muito como a clássica localidade do Drácula, de Bram Stocker, era um Elísio particularmente importante para o passado da Camarilla. Onde se reuniam grandes Conclaves no passado para decisões cruciais, mas há muito abandonado à própria sorte, por locais menos chamativos e que não demandassem uma estrutura tão grande. Mas somente um especialista em história e cultura cainita saberia dizer dos grandes feitos e da relevância desse local, o que não era o caso deste jovem John Mayson no momento interessado em seguir tranquilamente sua não-vida.
            John chama o garoto do almoxarife para então levar aquele cobertor até a lixeira, logo aquele corpo seria triturado pela coleta de lixo e não representaria nenhum problema. O garoto tentara dobrar o cobertor, percebendo o seu conteúdo parcamente oculto, e sob o efeito das artes da Dominação de John seguira obediente, somente tendo depois alguns acessos de peso na consciência e beijando o crucifixo luterano(1) que carregava religiosamente.
            John então decide que o garoto poderia ser um problema longe dele, e decide então mantê-lo por perto como um lacaio, enquanto emite ordens para que um dos garçons verifique como está a moça que serviu de seu alimento. John leva o almoxarife para a sua mansão, tentando-o com uma promoção, tornando-o um de seus funcionários diretamente pessoais, o que lisonjeia o garoto, que realmente parecia depender daquele dinheiro, porém, o coloca em xeque com a sua fé, já que acabara de tomar uma atitude nada cristã. Mesmo assim, a limusine segue e John está novamente em segurança em sua morada.
(1)     O crucifixo luterano, diferentemente do católico, não tem a imagem do Cristo no calvário, e tão somente a madeira vazia, representando a Ascenção de Jesus aos céus, para lembrar os fiéis da graça concedida por Deus, enquanto a cruz católica mantém a imagem do sofrimento buscando convencer as pessoas a resignarem-se e expiarem seus pecados. Explicação simplória, mas espero que esteja correta.