Dizem que quando não se sabe por onde começar uma história, se começa pelo começo. Então o começo dessa história é um personagem que é a escritora do personagem. Uma menina que é filha de pessoas que viveram parte da vida no interior, e outra na cidade, e que ainda mantinham laços com seus parentes nesse lugar. Não é difícil imaginar essa pequena Lady conhecendo o interior e suas formas simples e encantadoras. Como também não era difícil imaginar essa pequena Lady na cidade, desfrutando da pequena fortuna que seus pais construiram, vestida como uma boneca, e dona de uma boa educação, talvez um pouco mimada.
Essa menina conheceu até mesmo a sua bisavó, que foi viver na cidade há algumas décadas, em razão da idade avançada. A velhinha certa vez tinha dito ao seu "genro", o pai da menina, que "se não fosse tão jovem, quando eu morresse, queria que viesse comigo, porque é uma pessoa muito boa. E quando ela tinha três anos a sua bisavó se foi, depois de ter tentado inúteis vezes ensinar aquela menininha a fazer crochê. E uma semana depois, como que por um lapso do destino, a mãe do seu pai se foi, e ficava sem uma das suas avós. Isso, segundo ela, era chamado de 'destino'. Nada acontece por coincidência, é o inevitável.
Com sete anos seu pai a colocou em aulas para aprender piano. Mal tinha começado a escrever bem, já tinha mais uma atividade além de lidar com os coleguinhas da escola pública, algo que achava irritante, afinal, os seus comportamentos eram vulgares. Sabia ler desde os quatro anos, apesar de escrever com letras viradas, como em um espelho, por ser canhota, e acreditava que aquela escola pública horrorosa era uma coisa que impedia o desenvolvimento do seu conhecimento.
Aos nove para os dez anos foi transferida de escola, depois de um escândalo que se tornou judicial, por causa das diretoras da escola, em tese, praticantes de Magia Negra ou algum tipo de culto, que envolvia algumas das crianças da escola, fato este descoberto por ela e relatado aos seus pais. Apesar de ter traído a confiança de uma amiguinha, era algo que evidentemente envolvia inimigos e amigos políticos do seu pai, sempre cotado como candidato a alguma coisa e sempre negando-se a isso, além de ser algo que era, no seu parco entendimento, como uma católica compulsória pela tradição da família, fora da lei.
Na nova escola as coisas não eram muito diferentes da antiga, exceto que algumas pessoas pareciam ser menos vulgares. Mesmo assim, ela era a menina do canto, aquela que estudava em demasia e sabia todas as respostas, não que estudasse de fato, fora da escola nunca abriu um livro que fosse relativo às aulas, estes eram muito fáceis. Aprendeu a viajar pelo mundo lendo, e não era o tipo de criança que com doze anos estava se escondendo atrás da escola com um coleguinha. Pelo contrário, e talvez isso fizesse com que algumas das garotas vulgares, a seu ver, a detestassem. Mesmo assim, antes dos seus 16 anos não achava errado brincar de bonecas, ler ou escrever. Aos 14 anos parou de tocar piano, sua mãe atormentara a sua paciência de uma forma irritante, e esse foi o seu protesto.
Falando em idades, talvez tenha sido aos oito ou nove anos que conhecera a sua vó materna, quando ela iria fazer uma cirurgia de alguma coisa, que depois veio ela a descobrir que não era mortífera, mas tão somente um apendicite.
Seu avô materno era um interiorano negociante, que tinha um armazém, ou boteco, há mais de cinquenta anos, sempre em locais de alta periculosidade, e poucas pessoas tinham coragem de tentar intimidar um velho que parecia mais forte que muitos jovens, tinha estilhaços de chumbo em braços, pernas e outros lugares, e uma cicatriz em diagonal no meio do seu nariz. Segundo ele já tinha passado por mais de 27 assaltos, sempre reagira a todos, tinha mais de 18 tiros, nas suas contas, e aquela cicatriz era fruto de uma briga de facão que tivera com um ladrão certa vez. Muitas pessoas diziam que ele era louco, mas ela conversava periodicamente com o velho, afinal, ele era inteligente, apenas não tinha vocabulário para se expressar, e na falta disso criava analogias para explicar suas ideias, e sempre que possível, a analogia tinha uma vaca, de fato, ele era um colono em espírito.
Uma vez estava a conversar com o velho em seu bar, e enquanto ele se erguia para atender um cliente, e atirar para fora mais um bêbado, um velhinho lhe perguntou "o que você quer ser quando crescer?" e ela, no auge de seus quatro anos, olhou para o seu pai, que estava servindo-se de mais café ao lado, e perguntou a ele "qual é a profissão mais importante do país?" e o seu pai disse "ah... sei lá... deve ser presidente, porque?" e ela então olhou para o velhinho e disse "é isso aí que eu vou ser então..." Isso já denotava que ela possuia um ego e uma ambição para ser mais do que o destino poderia querer permitir que fosse.
Seus pais se separaram quando ela tinha 13 anos, e Lady tinha a essas alturas um irmão de 8 anos. Esse irmão era uma dupla desilusão. Afinal, com cinco anos ela pedira a seus pais uma irmãzinha para brincar, mas pensava que os filhos nasciam menores, mas não tão menores, era um bebê, e ainda por cima, um menino. O seu irmão ficara morando com a mãe, e ela percebendo que seria um grande problema ficar ali, saiu junto com seu pai. Tinha perfeito entendimento de que a mãe era uma péssima administradora e iria falir e vender tanto patrimônio de quanto dispusesse.
Estava certa. Dentro de quatro anos, via já mais de uma vez o Tabelionato da cidade, para ver sua mãe vendendo terrenos e casas. 70% do patrimônio que lhe era de direito se foi. A irritava esse tipo de coisa, afinal, aquilo deveria ser a sua herança, estavam dilapidando o seu futuro. Enquanto isso, a doença de seu pai piorava, e veio-lhe a cegueira. Mesmo cego, com os proventos de uns poucos alugueres de bangalôs, dos quais ainda contribuía para a previdência social em altos valores, aquele velho tinha conseguido adquirir terrenos enquanto a mãe fazia o inverso. Isso, ela sabia, era aptidão para as finanças. Até que então o velho se aposentara, com uma quantia pelo menos mais gorda, graças a suas contribuições.
Em seus 16 anos, vira seu pai casar-se com a viúva do irmão de sua mãe, via que seu avô achava que estava ficando tarde para quererem casá-la, e passava os dias estudando, lendo, brigando com o computador fraco e desatualizado, e as noites trabalhando no restaurante da tia, o que lhe rendia cansaço, afinal, dormia menos de quatro horas, trabalhava na cozinha, no balcão, servia mesas, cuidava do caixa, e por penalização pelos problemas de saúde da tia, ainda arrumava os estoques de bebidas de pesadas caixas toda noite.
Depois de uma grande conversa com seu pai e seu avô, para convencê-los de que ela deveria sim ter um diploma universitário e que casamentos eram inúteis, ouviu aquela frase, que a deixara muito feliz, do seu velho avô materno e punho de ferro da família "é... apesar de ser mulher, até que tu é inteligente". E foi assim que partiu a preparar-se para o vestibular, ver gente inteligente na capital, e não só alunos idiotas da sua cidade satélite, ver aulas que faziam mais sentido e ter pessoas que liam coisas e conheciam de ciências o suficiente para manter uma conversa mediana e compreender as suas ideias.
Nesse ambiente de estudos, tivera coragem de mostrar pela primeira vez um de seus textos, em que trabalhava no velho computador desde os 12 anos, para um amigo, que a fez crer que não deveria deletá-los, e sim publicá-los, e nunca desistir de escrever.
Conseguira uma bolsa federal em uma universidade de outra cidade, nem mesmo sabia onde isso ficava no mapa. Mas era a chance de sair de uma casa onde uma tia a detestava e tinha que manter o decoro e boa educação perante os insultos, treinando a sua paciência, e seria onde teria a liberdade de viver um pouco mais a sua própria vida. A partir de seus 18 anos, era uma acadêmica de Direito. No seu aniversário de 20 anos fechara o contrato para a publicação do seu primeiro livro, apesar de já ter mais quatro guardados em backups.
Ali ela poderia ser quem quisesse, ninguém se lembrava da antiga menina intelectual e que detestava a todos. Ali ela poderia ser popular, e aparentemente, ser intelectual não era um defeito, aquele era um meio de pessoas inteligentes, como ela. E se sentiu feliz por isso. Apesar de se sentir deprimida com o fato de mais de 80% dos outros alunos ser pseudo-intelectual e não compreender o real sentido da vida, da humanidade ou do significado da existência. As pessoas não compreendiam política, sociologia, antropologia ou ciências exatas da forma mínima necessária, nem nunca saberiam apreciar a neblina da manhã ou o som da chuva, muitas delas só compreenderiam o som de notas de dinheiro em atrito entre si enquanto são contadas, e para ela isso não era o suficiente para ser um profissional.
Uma percepção de tudo era necessário, e poucas pessoas tinham isso. E por incrível que parecesse, a maior parte dessas pessoas estava em grupos não da filosofia, na maior parte das vezes, mas pelo contrário, as vezes eram aquelas pessoas que nunca teriam um diploma, ou então, aquelas que tinham tantos diplomas que raramente poderiam ser compreendidas por seres humanos comuns. E fazia suas amizades dentro daqueles grupos politizados, ou informados sobre coisas diferentes, interessados em algo mais, a vida. Enquanto, ao mesmo tempo nutria uma grande vontade de ver mortas, torturadas, queimadas ou em eterno sofrimento aquelas pessoas desalmadas que viviam para comprar o que não queriam para exibir a pessoas de que não gostavam.
Talvez uma bomba atômica fosse uma coisa não tão má quanto diziam, apesar de que a radioatividade seria um problema na repovoação do mundo com pessoas inteligentes, então simplesmente esperava por alguma solução melhor, talvez um partido político revolucionário em ideias e atitudes, diferente do espectro político arraigado de revolucionários de vermelho ou de crentes no liberalismo arcaico, entre outras ideias inúteis. A solução que funcionasse primeiro, ou talvez um fim rápido para o seu sofrimento nesse mundo. Mesmo assim, antes de deixar o mundo, ainda queria poder fazer muitas coisas, escrever mais, conhecer mais, estudar mais, ler todos os livros que pudesse, voltar a tocar piano, acreditar. Acreditar que as coisas poderiam mudar. Seria incrível ter todo o tempo do mundo para descobrir a essência da verdade.
Poderia ser uma advogada brilhante, uma juíza, ou uma promotora. Advogados criavam soluções irreverentes a casos curiosos, isso era intrigante, juízes poderiam criar a verdadeira Justiça, se seguissem de fato as prerrogativas que tinham, o que a maior parte deles não seguia. Promotores, bem, eles ferram a vida dos outros, parecia divertido também. Gostava de ação, mas só a tinha em um estande de tiro quizenalmente, não era o tipo de pessoa forte o suficiente para ser da polícia ou da investigação, fisicamente, era uma menina frágil, apesar de ter bons dotes mentais para entender coisas.
Mas também poderia ser uma investidora, como o seu pai, empresária, tinha conhecimento suficiente para ter a coragem de empreender, embora não tivesse a mínima intenção de deixar seus livros de lado. Poderia fazer isso, administrar a sua futura herança, ou poderia fazer o que bem lhe aparecesse, tinha uma parte de si que era séria e comprometida, mas tinha uma parte de si que gostaria de entender o ser humano, que achava a vida importante demais para ser levada a sério, que amava a noite, o rock, a música erudita, as duas coisas juntas, e qualquer outra coisa que parecesse realmente inteligente. Entre ser séria, interessada em política, finanças e poder, e ser uma produtora e admiradora de arte e conhecimento, ser considerada louca por algumas pessoas por ter uma peculiar visão de mundo, entre devaneios que se refletiam nos seus livros, nada poderia defini-la exatamente. Tinha um grande ego, e aspirava a grandes coisas, como ao mesmo tempo, também conseguia admirar a parte simples e filosófica da vida, a parte que a maior das pessoas não conseguia entender, a verdade.
E era assim que vivia, em seu pequeno apartamento custeado pelo seu pai à distância, estudando, fazendo festas e analisando as pessoas, as vezes sendo popular, outras vezes querendo a solidão, outras vezes aspirando um tanto de status político, e outras ainda desejando algum método doloroso de tortura, a ser imaginado, ou mesmo escrito, já que era contra a lei fazer coisas assim, afinal pessoas burras ainda são pessoas, e não poderiam ser alvo de nenhum tipo de experimento macabro, mas sempre desejando que uma parte de si fosse eterna, que dentro de séculos ainda lessem o seu nome em um livro, e então tivesse a certeza de que era eterna e imortal.